Não há nada de errado pensar a Reforma Agrária como uma
Reforma de Terras, onde desfavorecidos, camponeses ou não, serão beneficiados. Isso
não é uma afronta, é apenas um lado das grandes versões da história e sociedade
em que vivemos. Não se pode analisar os problemas da terra do alto do pedestal
urbano, achando que os problemas como violência urbana, a fome (que sim, existe),
estão longe da calçada de casa, e estão sumindo dos gráficos da revista Veja.
Dados de pesquisas podem muito bem ser manipulados, existem
várias mentiras que foram contadas com verdades. Grande parte da população,
mais de 70% segundo pesquisas, tem uma imagem negativa do MST, por exemplo. E por
quê? Porque o que conhecemos vem da mídia, de terceiros, de professores, do
vizinho. Ninguém andou até uma um acampamento e foi ouvir a história das
pessoas, nem os jornais! Ninguém gosta de ser julgado pela roupa que veste, mas
julgar um movimento e seus integrantes, todos julgam. O MST luta pela
agricultura rural, totalmente afogada pelos grandes agricultores. E como alguém
diz que a agricultura familiar não tem importância? Já ouviu falar em
cooperativa? Grande parte do leite que consumimos vem de cooperativas, muitas
delas formadas por ex-trabalhadores sem-terra.
A agroindústria não atende a todas as necessidades, e isso é
observado pelo mundo. A Via Campesina é um movimento mundial de camponeses,
provando que problemas referentes à terra não são exclusividade do Brasil. Claro
que a América Latina possui uma grande concentração de terra, muitas vezes controladas
por multinacionais.
O alinhamento do MST e as discussões da reforma agrária começam
em 1985 com a organização de trabalhadores rurais empobrecidos, que se uniram e
tiveram o apoio da Associação Brasileira de Reforma Agrária, do PT e da Igreja
Católica (no interior as pessoas se reúnem na Igreja, é só ter convivência com famílias
interioranas pra saber que você vê seu vizinho aos domingos e o padre é quem reúne
as famílias. E não há nada de mancomunações altamente planejadas de como manter
vocações e gente lutando pela terra). E desde então os grandes proprietários é
que vencem a batalha.
Se existe a necessidade de uma Reforma Agrária, essa é
gerada pelo capitalismo, que prova a desigualdade, expulsões e expropriações da
parte mais fraca: os pequenos proprietários. A maneira dos sem-terra lutarem
pelo que um dia lhes foi tirados é resistindo. E tentaram resistir, seja durante
a ditadura militar ou ao agronegócio e a agroindústria.
Durante o segundo mandato de FHC houve grande repressão aos
sem-terra. E a partir das políticas neoliberais do ex-presidente, o desemprego
rural aumentou ainda mais, e mais pequenos produtores faliram. Falando em FHC,
ele criou uma forma de mandar quem incomodava pra bem longe: o plano Amazônica
Legal. Dá pra imaginar onde ele resolveu assentar os trabalhadores sem-terra:
bem longe de qualquer porto, centro urbano e área competitiva. Aos camponeses
resta lutar, por terras que resultem em competitividade diante de grandes latifundiários
e tecnologias avançadas no campo. Quando o Governo vai atender aos menos
favorecidos, desagradando multinacionais, grandes proprietários de terras (que
muitas vezes são os próprios políticos), é provavelmente um sonho distante. E por
isso é admirável a luta desses movimentos campesinos.