As
questões relativas à mulher contemporânea começam com o machismo milenar,
atravessam a seara doméstica e passam pela saúde pública. Simone de Beauvoir,
em o Segundo Sexo, já analisou a dependência histórica da mulher em relação ao
homem, como se dele fosse escrava e dependente. A condição do que é ser mulher
estaria sempre atrelada ao que o homem impõe como característica, dever e
predicativos de ser mulher. As mulheres deveriam ser a Amélia de Roberto
Carlos, poderia ser qualquer Maria, ou a Janaina, do Biquini Cavadão, que
acorda todo dia às quatro e meia. Mãe, mulher, trabalhadora do lar sem reclamar
e, hoje, trabalhando fora de casa.
A
mulher atual é uma máquina, é uma multiplicação de seres perfeitos, que
sorrindo devem realizar com maestria todas as obrigações. Pois hoje são donas
de casa, mães e quem sustenta a casa. E ainda, diante de tantas tarefas
múltiplas, há quem tenha a ousadia de reclamar que são frias, ou ainda, que
estão se tornando independentes demais. E esses ataques provem do machismo enrustido
na mentalidade da sociedade, e configura-se sim, uma violência contra a mulher.
A
violência contra a mulher não se restringe a agressão física e sexual, mas a
psicológica e moral também. Muitos maridos
- sim, maridos e companheiros são considerados agressores e não somente
desconhecidos – aterrorizam, humilham e ameaçam mulheres e filhos, seja
economicamente, sentimentalmente. Muitos homens ainda não entendem que não é
obrigação da mulher fazer sexo quando não deseja: o corpo da esposa, é da
esposa, não do marido. E tentar violar essa vontade é considerado estupro.
Ponto
polêmico, e que sofre preconceito diante de visões ligadas exclusivamente a
religião: o aborto. Os abortos acontecem, seja pela mãe não poder criar o filho
devido situação financeira, ou a jovem que não tem estrutura emocional. Os motivos
são muitos, e o número de abortos também. Remédios abortivos e métodos cruéis fazem
vítimas sem instrução. 220 mil curetagens são feitas por ano na rede de pública
em decorrência de abortos. Pesquisas apontam que uma, em cada cinco
brasileiras, até os 40 anos de idade, interrompeu ao menos uma gravidez na
vida. E metade teve complicações.
A
Marcha das Vadias, que aconteceu em várias capitais recentemente, traz à luz
esses problemas. Estão gritando aos nossos olhos e batendo às nossas portas a
falta de respeito com a mulher, a ignorância de muitas com seu próprio corpo, saúde
e direitos. O mundo está mudando, as condições nos lares, os deveres, então,
que os direitos também acompanhem essa mudança. Que a consciência do homem seja
direcionada ao respeito à mulher. Como estava em cartazes da Marcha das Vadias:
“Não diga como devemos nos vestir; diga aos homens para não estuprarem" .
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